28/11/2012

Zecharia Sitchin - O 12º. Planeta: CAP. 4 - A Suméria - Terra de Deuses

Não há dúvida de que as "velhas palavras", que durante milhares de anos constituíram a língua de altos estudos e de escrituras religiosas, eram o idioma da Suméria.

Também não há dúvida de que os "velhos deuses" foram o deuses da Suméria; registros, contos e genealogias da Suméria não foram encontrados num local ao acaso.


Quando estes deuses (nas formas sumérias originais ou nas posteriores acádias, babilônicas ou assírias) são nomeados e contados, a lista chega a centenas. Mas, uma vez classificados, torna-se claro que eles não formaram um amálgama de divindades. Elas eram chefiadas por um panteão de grandes deuses, governadas por uma assembléia de deidades e relacionadas umas com as outras. Uma vez excluídas as numerosas deidades inferiores (sobrinhas, sobrinhos, netos e semelhantes), emerge um grupo muito mais reduzido e coerente de divindades, cada uma com um papel a desempenhar, cada uma com certos poderes e responsabilidades.

Havia deuses (acreditavam os sumérios) que "vinham dos céus". Textos tratando do tempo "antes das coisas terem sido criadas" falam destes deuses celestiais pelos nomes de Apsu, Tiamat, Anshar e Kishar. Não há notícia nenhuma que nos diga que deuses desta categoria alguma vez aparecessem sobre a Terra. À medida que nos formos aproximando destes "deuses", que existiram antes que a Terra fosse criada, compreendemos que eles eram os corpos celestiais que constituíam nosso sistema solar. E, como demonstraremos, os assim chamados mitos sumérios referentes a estes deuses são, de fato, precisa e cientificamente, conceitos cosmológicos plausíveis debruçando-se sobre a criação do nosso sistema solar.

Havia também deuses inferiores que eram "da terra". Seus centros de culto eram, em sua maior parte, cidades de província e estes deuses não eram mais que simples deidades locais. Na melhor das hipóteses, estavam incumbidos de missões limitadas - como, por exemplo, a deusa NIN.KA SHI ("senhoracerveja"), que inspecionava a preparação de bebidas. Destes deuses, nenhuma lenda se conta. Não possuíam armas que intimidassem, e os outros deuses não estremeciam sob suas ordens. Fazem lembrar aquele grupo de jovens deuses que marcham no final da procissão gravada nas rochas hititas de Yazilikaya.

Entre os dois grupos de deuses havia os deuses do céu e da terra, chamados "os antigos deuses". Eles eram os "velhos deuses" dos contos épicos, e, na crença suméria, desceram à terra vindos do céu.

Não eram meras deidades locais. Eram deuses nacionais - de fato, internacionais. Alguns deles estavam presentes e ativos na Terra mesmo antes de o primeiro homem aparecer sobre ela. Na verdade, a própria
existência do homem foi considerada como sendo o resultado de um empreendimento deliberadamente criativo por parte desses deuses. Eram poderosos, capazes de feitos para além da capacidade e compreensão mortais. E, no entanto, estes deuses não só tinham um aspecto humano, como comiam
e bebiam como os humanos e gozavam, virtualmente, de todas as emoções humanas de amor e ódio, lealdade e infidelidade.

Embora os papéis e hierarquias de algumas das principais deidades mudem de posição ao longo dos milênios, certo número deles nunca perdeu sua posição de destaque e sua veneração nacional e internacional. À medida que lançamos um olhar mais atento sobre este grupo central, surge a imagem de
uma dinastia de deuses, uma família divina, intimamente relacionada e, no entanto, amargamente dividida.

O chefe desta família de deuses do céu e da terra era AN (ou Anu nos textos assírio-babilônicos). Ele era o Grande Pai dos Deuses, o Rei dos Deuses. O seu domínio era a extensão dos céus e seu símbolo, uma estrela. Na escrita pictográfica suméria, o signo da estrela representava também An, "céus" e "ser divino" ou "deus" (descendente de An). Este desdobramento em quatro do significado do símbolo manteve-se através dos anos, à medida que a escrita passava da pictográfica suméria à cuneiforme acádia, e à estilizada babilônica e assíria.

Desde os mais remotos tempos até ao desaparecimento da escrita cuneiforme - do 4º. milênio a.C. até quase ao tempo de Cristo -, este símbolo precedeu os nomes dos deuses, indicando que o nome escrito no texto não era o de um mortal, mas o de uma deidade de origem celeste.

A residência de Anu e a sede de seu reino estavam nos céus. Para ali se dirigiam os outros deuses do céu e da terra quando precisavam de conselho particulares ou favores, ou quando se reuniam em assembléia para aplacar disputas entre si ou chegar às mais importantes decisões. Numerosos textos descrevem o palácio de Anu (cujos portais eram guardados por um deus da Árvore da Verdade, por um deus da Árvore da Vida), seu trono, o modo como os outros deuses o abordavam e como se sentavam em sua presença.

Os textos sumérios podiam também reproduzir circunstâncias em que era permitida a ascensão à residência de Anu não apenas a outros deuses, como até mesmo a alguns mortais escolhidos, a maior parte das vezes, com o objetivo de fugirem à mortalidade. Um destes contos pertence a Adapa ("modelo de homem"). Ele era tão perfeito e leal ao deus Ea, que o criara, que Ea fez com que ele fosse recebido por Anu. Ea informou, então, aquilo que Adapa deveria esperar:

Adapa, tu vais estar na presença de Anu, o rei;
Vais tomar a estrada do céu.
Quando tiveres subido aos céus,
E te tiveres aproximado da porta de Anu,
O “Possuidor da Vida" e o "Plantador da Verdade”;
Estarás em frente da porta de Anu.

Guiado por seu criador, Adapa "aos céus subiu... ascendeu aos céus e chegou perto da porta de Anu".
Mas quando lhe foi oferecida a oportunidade de se tomar imortal, Adapa recusou comer o Pão da Vida, pensando que o irado Anu lhe oferecia comida envenenada. Deste modo, foi remetido para a terra como um sacerdote sagrado, mas sempre mortal.

A afirmação suméria de que não apenas deuses, mas também mortais escolhidos podiam subir à residência divina nos céus, encontra eco nas narrativas do Antigo Testamento sobre as ascensões ao céu de Enoc e do profeta Elias.

Embora Anu vivesse numa residência celestial, os textos sumérios relatam circunstâncias em que ele descia à terra, quer em épocas de grandes crises, quer em visitas cerimoniais (quando sua esposa ANTU o acompanhava), ou (o que aconteceu pelo menos uma vez) para fazer de sua bisneta IN.ANNA sua consorte na terra.

Uma vez que ele não residia permanentemente na terra, aparentemente não havia necessidade de lhe garantir a exclusividade de uma cidade ou centro de culto, e a residência ou "alta casa" erigida para ele estava localizada em Uruk (a Erech bíblica), domínio da deusa Inanna. As ruínas de Uruk incluem, hoje  em dia, um gigantesco monte feito pelo homem, no qual os arqueólogos encontraram provas da construção e reconstrução de um grande e alto templo - o templo de Anu; nada menos de dezoito estratos ou fases distintas foram aí descobertas, indicando, assim, a existência de razões obrigatórias para a manutenção do templo naquele local sagrado.

O templo de Anu chamava-se E.ANNA ("casa de An"). Mas este simples nome aplicava-se a uma estrutura que, pelo menos em algumas de suas fases, era digna de ser admirada. Era, de acordo com os textos sumérios, "o sagrado E.Anna, o puro santuário". As tradições defendem que os próprios grandes
deuses "idealizaram suas partes". "Sua cornija era como o cobre", "sua grande muralha focava as nuvens" - era um local supremo de domicilio; "era a Casa de encanto irresistível e fascínio infinito". E os textos tornam também claro o objetivo do templo, uma vez que lhe chamam "a casa para descer dos
céus
".

Uma barra que pertenceu a um arquivo em Uruk esclarece-nos sobre a pompa e o fausto que presidiam à chegada de Anu e de sua esposa numa "visita oficial". Devido à danificação da barra, apenas podemos decifrar as cerimônias a partir de um momento intermédio, quando Anu e Antu se acham já sentados na sala de recepções do templo. Os deuses "exatamente na mesma ordem que anteriormente" formaram depois uma procissão à frente e atrás do possuidor do cetro. O protocolo exigia em seguida:

Depois eles descerão à exaltada corte,
E voltar-se-ão na direção de Anu.
O Sacerdote da Purificação fará as libações ao cetro,
E o possuidor do cetro entrará e se sentará.
As deidades Papsukal, Nusku e Shala
Sentar-se-ão então na corte do rei Anu.


Enquanto isso, as deusas, a "Divina Prole de Anu, As Divinas Filhas de Uruk", carregavam um segundo objeto (cujo nome ou fim não são claros) até ao E.NIR, "A Casa do Leito Dourado e da Deusa Antu". Depois, regressavam em procissão à sala da corte, até o lugar onde Antu estava sentada. Enquanto a refeição da tarde era preparada de acordo com um rígido ritual, um sacerdote especial untava com uma mistura de "bom azeite" e vinho as dobradiças da porta do santuário para o qual Anu e Antu se retirariam à noite - um gesto atencioso com o qual se pretendia (ao que parece) eliminar o rangido das portas durante o sono das duas deidades.

Enquanto uma "refeição da tarde" era servida (várias bebidas e aperitivos), um sacerdote-astrônomo dirigia-se ao "mais elevado piso da torre do templo principal" para perscrutar os céus. Ele estava ali para observar o  aparecimento numa específica parte do céu de um planeta chamado Grande Anu do Céu. Ali no topo, ele tinha de recitar as composições intituladas “Aquele que cresce brilhante, o celestial planeta do Senhor Anu" e "A Imagem do Criador ascendeu".

Uma vez descortinado o planeta e recitados os poemas, Anu e Antu lavavam as mãos com água numa tina dourada e começava a primeira parte da festa. Depois, os sete grandes deuses lavavam também as mãos em grandes travessas douradas e dava-se início à segunda parte da festa. O "rito da lavagem da boca" era então cumprido e os sacerdotes recitavam o hino "O Planeta de Anu é o Herói dos Céus". Acendiam-se os archotes, e deuses, sacerdotes, cantores e carregadores de comida organizavam-se em procissão, acompanhando os dois visitantes ao santuário para a noite.

Quatro grandes divindades eram designadas para permanecer na sala da corte montando guarda até o raiar do dia. Outras eram colocadas em vários portões designados. Entretanto, toda a região animava e celebrava a presença dos dois divinos visitantes. A um sinal do templo principal, os sacerdotes de todos os outros templos de Uruk tinham de "usar tochas para acender fogueiras" e os sacerdotes noutras cidades, vendo as fogueiras em Uruk, procediam do mesmo modo. Então:

O povo da terra incendiará fogueiras em seus lares,
E oferecerá banquetes a todos os deuses...
Os guardas das cidades acenderão fogueiras
Nas ruas e nas praças.

A partida dos dois grandes deuses estava também planejada não só até um dia, como até um minuto.

Ao décimo sétimo dia,
Quarenta minutos depois do nascer do Sol,
O portão abrir-se-á perante os deuses Anu e Antu,
Pondo fim à sua estada breve.

A parte final desta barra se quebrou, mas outro texto descreve, com todas as probabilidades, a partida: a refeição da manhã, os encantamentos, os apertos de mão ("a posse das mãos") dos outros deuses. Os grandes deuses eram levados até seu ponto de partida em liteiras semelhantes a tronos aos ombros de funcionários do templo. Uma descrição assíria de uma procissão de deidades (embora de uma época mais tardia) dá-nos, provavelmente, uma boa idéia da maneira como Anu e Antu eram levados durante sua procissão em Uruk.

Eram recitados encantamentos especiais quando a procissão passava através da "Rua dos Deuses", outros salmos e hinos eram cantados à medida que a procissão se aproximava "do cais sagrado" e quando alcançava "o canal do navio de Anu". Proferiam-se então as despedidas e recitavam-se e cantavam-se mais encantamentos "com gestos, erguendo as mãos".

Depois, todos os sacerdotes e funcionários do templo que carregavam os deuses, conduzidos por um grande sacerdote, ofereciam uma oração de partida especial. "Grande Anu, possam céu e terra abençoar-te!", entoavam eles sete vezes. Rezavam então pela bênção dos sete deuses celestiais e invocavam os deuses que estavam no céu e os que andavam por sobre a terra. Por fim, proclamavam o adeus a Anu e Antu deste modo:

Possam os deuses das profundezas
E os deuses da residência divina abençoar-vos!
Possam eles abençoar-vos diariamente –
Cada dia de cada mês de cada ano!

Entre milhares e milhares de descrições dos deuses antigos que foram desenterradas, nenhuma parece descrever Anu. E, no entanto, ele examina - nos de cada estátua e de cada retrato de cada rei que existiu desde a Antiguidade até nossos próprios dias. Anu não era só o Grande Deus, Rei dos Deuses, mas também aquele por cuja graça outros podiam ser coroados reis. Pela tradição suméria, a chefia dimanava de Anu, e o termo exato para "Reino" era Anutu ("Chefia-Anu"). As insígnias de Anu eram a tiara (o toucado divino), o cetro (símbolo de poder) e o bastão (simbolizando a guia dos pastores).

O bastão do pastor, hoje em dia, pode ser mais facilmente encontrado nas mãos de bispos do que nas de reis. Mas a coroa e o cetro são ainda usados não importando sobre que reis e tronos a humanidade tenha se firmado.

A segunda mais poderosa deidade do panteão sumério era EN.LIL. Seu nome significava "Senhor do Espaço" - é o protótipo e pai dos posteriores Deuses de Tempestade que iriam chefiar os panteões do Mundo Antigo.

Ele era o filho mais velho de Anu, nascido na residência celestial paterna. Mas em algum momento dos longínquos tempos, desceu à terra e tornou-se, deste modo, o principal Deus do céu e da terra. Quando os deuses se reuniam em assembléia na residência celestial, Enlil presidia à reunião ao lado de seu pai. Quando os deuses se reuniam em assembléia na terra, encontravam-se na corte de Enlil, no divino recinto de Nippur, a cidade dedicada a Enlil e o local de seu templo principal, o E.KUR ("casa que é como uma montanha").

Não apenas os sumérios, mas também os próprios deuses da Suméria consideravam Enlil supremo. Chamavam-lhe Governante de Todas as Terras e esclareceram que "no céu - ele é o príncipe; na terra - ele é o chefe". Sua "palavra [ordem] lá no alto fez tremer os céus; cá em baixo, fez a terra estremecer":

Enlil,
Cujo comando alcança até longe;
Cuja “palavra" é suprema e sagrada;
Cuja sentença é imutável;
Que decreta destinos ao longo do distante futuro...
Os deuses da terra inclinam-se voluntariamente perante ele;
Os deuses celestiais que estão na terra,
Humilham-se em sua frente;
Aguardam fielmente, de acordo com as ordens.

Enlil, segundo as crenças sumérias, chegou à terra muito antes de esta se ter estabelecido e civilizado. Um hino a Enlil, o "Todo-Beneficente", reconta os vários aspectos da sociedade e civilização que não teriam existido sem as instruções de Enlil para que "suas ordens fossem executadas por toda a parte".

Cidade alguma teria sido construída; nenhuma colônia fundada;
Estábulo algum teria sido construído; nenhum curral erigido;
Rei algum teria subido ao trono; nenhum alto sacerdote nascido.

Os textos sumérios afirmam também que Enlil chegou à terra antes que o "povo de cabeça preta" - a alcunha suméria para a humanidade fosse criado. Durante estes tempos pré-humanidade, Enlil erigiu Nippur como seu centro ou "posto de comando", no qual céu e terra estavam ligados através de um qualquer "elo". Os textos sumérios chamam a este elo DUR.AN.KI ("elo céuterra") e usam linguagem poética para descrever as primeiras ações de Enlil sobre a terra:

Enlil,
Quando tu estabeleceste colônias na terra,
Nippur tu decidiste que seria tua própria cidade.
A Cidade da Terra, a suprema,
O teu puro local cuja água é doce.
Fundaste o Dur-An-Ki
No centro dos quatro cantos do mundo.

Nesses dias do princípio, quando apenas os deuses habitavam Nippur e o homem ainda não fora criado, Enlil encontrou a deusa que se tornaria sua mulher. De acordo com uma versão, Enlil viu sua futura noiva enquanto ela se banhava na corrente de Nippur - nua! Foi amor à primeira vista, mas não necessariamente com fins matrimoniais:

O pastor Enlil, que decreta os destinos,
O de brilhantes-olhos, viu-a.
O Senhor fala-lhe de amor, mas ela não quer.
Enlil fala-lhe de amor, e ela não quer:
Minha vagina é demasiado pequena [diz ela],
Não conhece a cópula;
Meus lábios são demasiado pequenos,
Não conhecem o beijo.

Mas Enlil não aceitou o não como resposta, revelando a seu camareiro Nushku o ardente desejo pela "jovem donzela", cujo nome é SUD ("a enfermeira") e que vive com a mãe em E.RESH ("casa perfumada"). Nushku sugeriu então um passeio pelo rio e trouxe um barco. Enlil persuadiu Sud a ir navegar com ele e, uma vez no barco, violentou-a.

A velha lenda relata, em seguida, que, embora Enlil fosse chefe dos deuses, estes ficaram tão irados que o agarraram e expulsaram para o Mundo Inferior! "Enlil, imoral!" - gritaram-lhe. - "Põe-te fora da cidade!" Esta versão diz ainda que Sud, grávida de Enlil, o seguiu, casando com ele depois. Outra versão descreve o arrependido Enlil à procura da moça e enviando seu camareiro à mãe dela para lhe pedir a mão da filha. De uma forma ou de outra, Sud tornou-se mulher de Enlil e ele concedeu-lhe o titulo de NIN.LIL ("Senhora do Espaço").

Mas ele pouco fez; e os deuses sabiam, quando o baniram, que não fora ele que seduzira Ninlil, mas que as coisas se passaram de forma inversa. A verdade é que Ninlil se banhava nua no rio segundo instruções da própria mãe, na esperança de que Enlil, que normalmente dirigia seus passeios para os lados do rio, reparasse em Ninlil e desejasse “sem demora abraçar-te e beijar-te".

A despeito da maneira como os dois se apaixonaram, Ninlil foi tida na mais elevada estima a partir do momento em que Enlil lhe concedeu “as vestes de soberana". Com uma exceção, que (acreditamos) se prendeu a questões de sucessão dinástica, não se conhecem de Enlil outras fugas à fidelidade.
Uma barra votiva encontrada em Nippur mostra Enlil e Ninlil sendo servidos de comer e de beber em seu templo. A barra fora autorizada por Ur-Enlil, o "Criado de Enlil".

Além de ser chefe dos deuses, Enlil era também considerado como o Senhor Supremo da Suméria (esta última, chamada, por vezes, simplesmente "A Terra") e de seu "povo de cabeça preta". Um salmo sumério fala em veneração ao seu deus do seguinte modo:

Senhor que conhece o destino da Terra,
Digno de confiança em sua chamada;
Enlil que conhece o destino da Suméria;
igno de confiança em sua chamada;
Pai, Enlil,
Senhor de todas as terras;

Pai Enlil,
Senhor do justo comando;
Pai Enlil,
Pastor dos de cabeça preta...
Da montanha da alvorada à montanha do crepúsculo,
Não há outro Senhor na terra;
Tu só és rei.

Os sumérios reverenciavam Enlil tanto por medo, como por gratidão. Ele era quem assegurava que os decretos da assembléia dos deuses se voltassem contra a humanidade; era seu "vento" que soprava obliterando tempestades contra cidades ofensoras. Fora ele que, no tempo do dilúvio, procurara a
destruição da humanidade. Mas quando em paz com o gênero humano, era um deus amigável que concedia favores. De acordo com o texto sumério, o conhecimento da agricultura, conjuntamente com o arado e a picareta, foram dádivas de Enlil à humanidade.

Enlil também selecionava os reis que iriam governar a humanidade não como soberanos, mas como servidores do deus incumbido da administração das leis divinas de justiça. Do mesmo modo, os reis sumérios, acádios e babilônios abriram suas inscrições de auto-adoração descrevendo como Enlil os chamara ao poder. Estas "chamadas" - executadas por Enlil em seu próprio interesse e no interesse de seu pai Anu - garantiam legitimidade ao governante e delineavam suas funções. Mesmo Hamurabi, que reconheceu um deus chamado Marduk como o deus nacional da Babilônia, prefaciou seu Código de Leis, afirmando: "Anu e Enlil chamaram-me para promover o bem-estar do povo... para fazer com que a justiça prevaleça na região".

Deus do Céu e da Terra, Primogênito de Anu, Doador de Poder, Chefe Executivo da Assembléia de Deuses, Pai dos Deuses e dos Homens, Doador da Agricultura, Senhor do Espaço - estes eram alguns dos atributos de Enlil que revelam sua grandeza e poderes. Seu "comando alcançava até longe", suas "sentenças eram imutáveis"; ele "decretava os destinos". Ele possuía o "elo céu-terra" e, da "intimidante cidade de Nippur", podia "levantar os feixes que procuram o coração de todas as terras" - "olhos que podiam esquadrinhar todas as terras".

E, no entanto, ele era tão humano como qualquer jovem homem embevecido por uma beleza nua; estava sujeito a leis morais impostas pela comunidade de deuses, a transgressões puníveis pela expulsão, e nem sequer imune a queixas humanas. Pelo menos numa circunstância conhecida, um rei sumério de Ur
queixou-se diretamente à assembléia dos deuses que uma série de problemas que caíram sobre Ur e o seu povo podiam ter origem no fato de triste memória de "Enlil ter dado o poder a um homem inútil... que não era de raiz suméria".

À medida que formos prosseguindo, veremos o papel central que Enlil desempenhou nos negócios divinos e mortais na terra e como é que seus vários filhos se bateram entre si pela sucessão divina, dando origem, indubitavelmente, às posteriores lendas sobre as batalhas entre os deuses. O terceiro Grande Deus da Suméria era outro filho de Anu; ele tinha dois nomes: E.A. e EN.KI. Tal como seu irmão Enlil, era também um Deus do céu e da Terra, uma deidade original dos céus que descera para a Terra.

Sua chegada à Terra é associada, nos textos sumérios, como a época em que as águas do golfo Pérsico alcançaram o interior muito mais profundamente que hoje em dia, transformando a parte sul da região em pântanos. Ea (o nome literalmente signifIcava "casa-água"), um perito engenheiro, planejou e supervisionou a construção de canais, diques nos rios e a drenagem dos pântanos. Ele adorava navegar nesses canais de água e, especialmente, nos pântanos. As águas, como seu nome denota, eram realmente seu elemento.

Ele construiu sua "grande casa" na cidade que fundara numa das extremidades dos pântanos, uma cidade apropriadamente chamada HA.A.KI ("local dos peixes-na-água"), também conhecida por E.RI.DU ("casa de ir longe").

Ea era "Senhor das Águas Salgadas", os mares e os oceanos. Os textos sumérios falam repetidamente de um tempo muito recuado em que os três grandes deuses dividiram os domínios entre si. "Os mares foram dados a Enki, o príncipe da terra", concedendo assim a Enki "o domínio de Apsu" (o "Abismo"). Como Senhor dos Mares, Ea construiu barcos que navegaram para terras longínquas e, em especial, para lugares de onde eram trazidos para a Suméria metais preciosos e pedras semi-preciosas.

Os selos cilíndricos sumérios mais antigos representam Ea como uma divindade rodeada por rios fluindo, onde às vezes se vêem peixes. Os selos associam Ea, como se mostra aqui, à Lua (indicada na sua fase crescente), uma associação enraizada, talvez, no fato de a Lua ser a causadora das marés. Sem dúvida, o epíteto NIN.IGI.KU ("senhor dos olhos brilhantes") de Ea referia-se a esta imagem astral.

Segundo os textos sumérios, incluindo uma autobiografIa de Ea verdadeiramente espantosa, ele nasceu nos céus e desceu à terra antes de haver qualquer colônia ou civilização sobre a terra. "Quando eu me aproximei do território, havia muitas inundações", afirmava ele. Prossegue depois escrevendo a série de medidas que tomou para tornar a terra habitável: encheu o rio Tigre de água fresca e "geradora de vida"; indicou um deus para supervisionar a construção de canais, para fazer o Tigre e o Eufrates navegáveis; desobstruiu os pântanos, enchendo-os de peixe e transformandoos em abrigos para pássaros de todos os gêneros e fazendo crescer aí juncos, que eram um útil material de construção.

Mudando dos mares e rios para a terra seca, Ea pretende ter sido o deus que "dirigiu o arado e a junta... abriu os sagrados sulcos... construiu os estábulos... erigiu os currais". Continuando, o texto autopanegírico (chamado "Enki e a ordem do mundo", pelos eruditos) dá ao deus o crédito de ter sido ele a trazer para a terra as artes da fabricação de tijolos, construção de domicílios e cidades, metalurgia, e assim por diante.

Apresentando esta deidade como o maior benfeitor da humanidade, o deus que ocasionou a civilização, muitos textos descrevem-no também como protagonista-chefe da humanidade nos conselhos de deuses. Os textos diluvianos-acádios e sumérios, nos quais se devem ter baseado os relatos bíblicos, descrevem Ea como o deus que, desafiando a decisão da Assembléia dos deuses, permitiu a um seguidor de confiança (o "Noé" mesopotâmico) escapar ao desastre.

De fato, os textos acádios e sumérios, que (tal como o Antigo Testamento) aderiram à crença de que um deus ou deuses criaram o homem através de um ato consciente e deliberado, atribuem a Ea um papel-chave: como cientistachefe dos deuses, ele delineou o método e o processo pelo qual o homem seria criado. Com tanta afinidade com a "criação" ou a emergência do homem, não admira que Ea tenha guiado Adapa - o "homem modelo" criado pela "sabedoria" de Ea - para a residência de Anu nos céus, desafiando a determinação dos deuses de negarem a "vida eterna” ao gênero humano.

Estava Ea do lado do homem simplesmente porque participara de sua criação, ou teria Ea outros motivos bem mais subjetivos? À medida que dissecamos o registro, vemos invariavelmente que o desafio de Ea - tanto em assuntos de mortais como em assuntos divinos - tem, a maior parte das vezes, o objetivo de frustrar decisões ou planos emanados de Enlil.

O registro está repleto de indicações de Ea "ardendo" de inveja de seu irmão Enlil. De fato, o outro nome, talvez mesmo o primeiro de Ea, era EN.KI ("senhor da terra"), e os textos tratando da divisão do mundo entre os deuses sugerem que possa ter sido apenas pelo lançamento de sortes que Ea perdeu o domínio da terra a favor de seu irmão Enlil.

Os deuses trocaram apertos de mão,
Lançaram sortes e dividiram.
Anu subiu ao céu;
A terra foi dada a Enlil como incumbência,
Os mares, enlaçados como numa cadeia,
Foram dados a Enki, o Príncipe da Terra.

Por muito amargo que Ea/Enki ficasse com os resultados deste lançamento de sortes, ele parece nutrir um ressentimento muito mais profundo ainda. A razão para isso dá o próprio Enki em sua autobiografia: era ele, e não Enlil, o filho primogênito, clamava Enki; deste modo, era ele, e não Enlil, quem estava no direito de ser o herdeiro efetivo de Anu:

Meu pai, o rei do universo, trouxe-me à luz para o universo...
Eu sou a semente fecunda, engendrada pelo Grande Touro Selvagem;
Eu sou o filho primogênito de Anu.
Eu sou o Grande Irmão dos deuses...
Eu sou o que nasceu como primeiro filho do divino Anu.

Uma vez que os códigos de leis pelos quais os homens viveram no antigo Oriente Médio foram dados pelos deuses, não há razão para que as leis sociais e de família aplicáveis aos homens não fossem cópias das que eram aplicáveis aos deuses. Registros de arte e família encontrados em locais como Mari e Nuzi confirmaram que os costumes e as leis bíblicas com os quais os patriarcas hebreus viveram eram as leis às quais reis e nobres estiveram obrigados ao longo do antigo Oriente Médio. Os problemas de sucessão que os patriarcas enfrentaram são, portanto, instrutivos.

Abraão, privado de ter um filho devido à aparente esterilidade de sua mulher Sara, teve um filho primogênito da servidora de sua mulher. No entanto, seu filho (Ismael) foi excluído da sucessão patriarcal logo que Sara deu a Abraão um filho dela própria, Isaac.

A mulher de Isaac, Rebeca, ficou grávida de dois gêmeos. Esaú, ruivo, peludo e robusto, foi tecnicamente o primogênito. Agarrado ao calcanhar de Esaú nasceu Jacó, mais refinado, e a quem Rebeca encheu de carinhos. Quando o idoso e meio cego Isaac se preparava para proclamar seu testamento, Rebeca serviu-se de um ardil para ter a bênção de saber que a sucessão seria garantida por Jacó, e não por Esaú.

Finalmente, os problemas de sucessão de Jacó resultaram do fato de que, embora tivesse servido Labão durante vinte anos para obter a mão de Raquel em casamento, Labão forçou-o a casar primeiro com a irmã mais velha de Raquel, Lia. Foi Lia quem deu a Jacó seu primeiro filho (Rubens), e ele teve mais filhos e uma filha dela e de duas concubinas. No entanto, quando Raquel, finalmente, lhe deu seu filho primogênito (José), Jacó preferiu-o aos seus irmãos.

Conhecendo estes costumes e leis de sucessão, podemos entender as reivindicações conflituosas entre Enlil e Ea/Enki. Enlil, filho de Anu e de sua consorte oficial Antu em todos os registros, era o primogênito legal. Mas o grito angustiado de Enki: Eu sou a semente fecunda... Eu sou o primogênito filho de Anu, deve ter sido uma exposição de fatos. Teria ele então nascido de Anu, mas de outra deusa que foi apenas uma concubina? O conto de Isaac e Ismael ou a história dos gêmeos Esaú e Jacó podem ter tido um paralelo anterior na residência celestial.

Embora Enki pareça ter aceitado as prerrogativas da sucessão de Enlil, alguns estudiosos vêem provas suficientes para mostrar uma contínua luta de poderes entre os dois deuses. Samuel N. Kramer intitulou um dos textos antigos "Enki e o Seu Complexo de Inferioridade". Como mais tarde veremos, vários contos bíblicos - de Eva e da serpente no Jardim do Éden, ou o conto do dilúvio - envolvem em suas versões originais sumérias momentos de desafio de Enki aos éditos de seu irmão.

Em determinado instante, parece, Enki reconheceu que não fazia sentido lutar pelo trono divino e concentrou seus esforços em fazer um filho seu - de preferência a um filho de Enlil - ser o herdeiro da terceira geração. Procurou alcançar isto, pelo menos a princípio, com a ajuda de sua irmã NIN.HUR.SAG ("senhora do topo da montanha").

Ela era também uma filha de Anu, mas não evidentemente de Antu, e nesse particular residia outra regra de sucessão. Os eruditos perguntaram-se em anos passados por que razão tanto Abraão como Isaac anunciaram o fato de que suas respectivas esposas eram também suas irmãs - uma afirmação que
confunde, tendo em vista a proibição bíblica de relações sexuais entre irmãos
. Mas, quando os documentos legais foram desenterrados em Mari e Nuzi, tornou-se claro que um homem podia casar com uma meia-irmã. E ainda mais, considerando-se todas as crianças de todas as mulheres, o filho de uma esposa assim - sendo cinqüenta por cento de mais "pura semente" que um filho de mulher não aparentada - era o herdeiro legal, fosse ou não o filho primogênito. Isto, incidentalmente, levou à prática (em Mari e Nuzi) da adoção de uma "irmã" como esposa preferida visando fazer do filho que ela
tivesse o incontestado herdeiro legal.

Foi de uma destas meias-irmãs, Ninhursag, que Enki procurou ter um filho.
Também ela era do céu, tendo descido à terra nos tempos mais remotos.
Alguns textos afirmam que, quando os deuses dividiam os domínios da terra entre si, a ela foi dada a Terra de Dilmun - "um lugar puro... uma terra pura... um lugar tão brilhante". Um texto chamado pelos eruditos "Enki e Nihursag - Um Mito do Paraíso" trata da viagem de Enki a Dilmun com fins conjugais. Ninhursag, acentua repetidamente o texto, "estava sozinha", descomprometida, solteirona. Embora em tempos posteriores ela seja descrita como uma velha matrona, deve ter sido muito atraente quando jovem, uma vez que o texto informa-nos, sem nenhum pudor, que, quando Enki se aproximou dela, à sua vista "seu pênis fez transbordar os diques de água".

Dando ordem para que ficassem sozinhos, Enki "depositou o sêmen no ventre de Ninhursag. Ela aceitou-o dentro do ventre, ao sêmen de Enki" e, depois, "após os nove meses de feminilidade... ela deu à luz nas margens das águas". Mas a criança era uma menina.

Tendo falhado em obter um herdeiro masculino, Enki resolveu depois fazer amor com sua própria filha. "Ele abraçou-a, ele beijou-a; Enki depositou o sêmen no ventre". Mas também ela lhe deu uma filha. Enki correu então atrás de sua neta e engravidou-a também, mas mais uma vez o resultado desta ligação foi um rebento feminino. Firmemente decidida a parar com estes esforços, Ninhursag amaldiçoou Enki, que, tendo digerido algumas plantas, ficou mortalmente doente. Os outros deuses, no entanto, forçaram Ninhursag a retirar a praga.

Enquanto estes acontecimentos tiveram grande repercussão nos negócios divinos, outros contos referentes a Enki e Ninhursag tiveram enorme influência nos negócios terrenos humanos, uma vez que, segundo os textos sumérios, o homem foi criado por Ninhursag, seguindo processos e fórmulas legadas por Enki. Ela era a enfermeira-chefe, aquela que tinha a seu cargo o equipamento médico: era nesse seu papel que a deusa era chamada NIN.TI ("senhora-vida").

Alguns eruditos vêem em Adapa (o "homem modelo" de Enki) o bíblico Adama ou Adão. O duplo significado do sumérioTI” suscita também paralelos bíblicos. Ti podia significar tanto "vida" como "costela.", e, assim, o nome de Ninti significava não só "senhora de vida" como também “senhora da costela". A Eva bíblica, cujo nome significava "vida", foi criada à partir da costela de Adão, e, portanto, Eva, de certo modo, era também uma "senhora de vida" e "senhora da costela".

Como doador de vida tanto aos deuses, como aos homens, fala-se de Ninhursag como de uma deusa-mãe. Seu diminutivo era "Mammu" a palavra predecessora do nosso atual "mamã" - e seu símbolo era o "cortador"- o utensílio usado na Antiguidade pelas parteiras para cortar o cordão umbilical depois do nascimento.

Enlil, irmão e rival de Enki, teve a boa sorte de conseguir um "justo herdeiro" da sua irmã Ninhursag. O mais jovem dos deuses sobre a terra, que nasceu nos céus, tinha o nome de NIN.UR.TA ("senhor que completa a fundação").

Ele era o "heróico filho de Enlil que avançava com cadeias e raios de luz" para se bater por seu pai; "o filho vingador... que desfere flechas de luz".

Sua esposa BA.U era também enfermeira ou médica e seu epíteto era "senhora que os mortos traz à vida'”.

Os desenhos antigos de Ninurta mostram-no empunhando uma arma única, sem dúvida a tal que podia desferir "flechas de luz". Os textos antigos aclamam-no como um poderoso caçador, um deus lutador conhecido por suas capacidades marciais. Mas seu mais proeminente feito heróico não foi executado no interesse de seu pai, mas em seu próprio. Foi uma batalha de grande alcance com um deus maligno chamado Zu (“sensato”) e envolveu nada menos que a chefia dos deuses da terra, uma vez que Zu capturara ilegalmente a insígnia e os objetos que Enlil mantinha como chefe dos deuses.

Os textos descrevendo estes acontecimentos estão quebrados no princípio, e a história só se torna legível no ponto em que Zu chega a E-Kur, o templo de Enlil. Aparentemente, ele é conhecido e tem alguma categoria, uma vez que Enlil lhe dá as boas-vindas, "confiando-lhe a guarda da entrada de seu santuário". Mas o "malvado Zu" retribuiria a confiança com a traição, uma vez que “tramou em seu coração a destituição de Enlil", a apreensão de seus poderes.

Para consegui-lo Zu tinha de entrar na posse de certos objetos, incluindo a mágica Barra dos Destinos. O maligno Zu teve sua oportunidade quando Enlil se despiu ao entrar na piscina para seu banho diário, negligenciando seus adornos.

A entrada do santuário,
Que ele estivera a avistar,
Zu aguarda o início do dia.
Enquanto Enlil se lavava com água pura
Tendo retirado sua coroa,
Tendo-a depositado no trono
Zu agarrou a Barra dos Destinos em suas mãos,
E destituiu o Reino de Enlil.

Enquanto Zu fugia em sua MU (traduzido "nome", mais indicando uma máquina voadora) para um longínquo esconderijo, as conseqüências de seu ousado ato começavam a surtir efeito.

Suspensas as fórmulas divinas,
A quietude espalhou-se por todo o lado; o silêncio reinou...
O esplendor do santuário desapareceu.

"O Pai Enlil ficou sem fala." "Os deuses da terra foram-se reunindo um a um, à volta das notícias." O assunto era tão grave que até Anu em sua residência celestial foi informado. Ele reviu a situação e concluiu que Zu devia ser capturado para que as "fórmulas" fossem restauradas. Voltando-se "para os deuses, seus filhos", Anu perguntou, "Quem, entre os deuses, matará Zu? Seu nome será o mais glorioso de todos!”

Vários deuses conhecidos por seu valor foram convocados. Mas todos salientaram que, tendo roubado a Barra dos Destinos, Zu possuía agora os mesmos poderes que Enlil, e, assim, aquele "que a ele se opuser tornar-se-á como a argila". Nesta altura, Ea teve uma grande idéia. "Por que não chamar Ninurta para assumir aquela luta sem esperança?

Os deuses em reunião não podiam ter deixado de compreender o engenhoso ardil de Ea. Sem dúvida, as chances da sucessão se resolver pelo lado de sua prole aumentariam se Zu fosse derrotado; do mesmo modo, ele se beneficiaria se Ninurta fosse assassinado durante este processo. Para estupefação dos deuses, Ninhursag (chamada neste texto NIN.MAH ("grande senhora") concordou. Dirigindo-se a seu filho Ninurta, explicou-lhe que Zu retirara não só Enlil, mas também Ninurta do reino de Enlil. "Dei à luz com gritos de dor", bradou ela, e foi ela quem "tornou certo para meu irmão e para Anu" a continuidade do "Reino dos Céus". Para que suas dores não tivessem sido em vão, ela deu instruções a Ninurta para se retirar e lutar para vencer:

Desfere a tua ofensiva... captura o fugitivo Zu...
Deixa que a aterradora ofensiva se ire contra ele...
Corta sua garganta! Conquista Zu!
Que os sete ventos da doença se dirijam contra ele,
Faz com que todos os furacões o ataquem,
Que a radiação vá contra ele...
Que os ventos levem suas asas até um lugar secreto...
Que a soberania regresse a E-kur;
Que as fórmulas divinas regressem
Ao pai que te gerou.

As várias versões da epopéia fornecem então emocionantes descrições da batalha que se seguiu. Ninurta disparou "flechas" contra Zu, mas as "flechas" não podiam aproximar-se do corpo de Zu... enquanto ele tivesse em suas mãos a Barra dos Destinos dos deuses. Desferidas, as "armas eram paradas a meio" do seu trajeto. Como a inconseqüente batalha começava a fatigar, Ea aconselhou Ninurta a juntar um til-lum às suas armas e dispará-las para dentro das "penas", ou pequenas "rodas-dentadas", das "asas" de Zu. Seguindo este conselho e gritando "Asa a asa", Ninurta disparou o til-lum para as penas de Zu. Atingidas deste modo, as penas começaram a espalharse e as "asas" de Zu caíram em espiral. Zu fora derrotado e a Barra dos Destinos voltava à Enlil.

Quem era Zu? Seria ele, como defendem alguns estudiosos, um "pássaro mitológico"?

É evidente que ele podia voar. Mas também qualquer homem hoje em dia o pode fazer se tomar um avião, ou qualquer astronauta que viaje numa nave espacial. Ninurta também podia voar tão habilidosamente como Zu (talvez mesmo melhor). Mas ele próprio não era um pássaro fosse de que tipo fosse, como retratam abundantemente as suas muitas descrições (por ele próprio ou pela sua consorte BA.U, também chamada GU.LA). Muito pelo contrário, ele executava seu vôo com a ajuda de um notável “pássaro", que mantinha guardado em seu recinto sagrado (o GIR.SU) na cidade de Lagash.

Nem sequer Zu era um "pássaro". Aparentemente ele tinha à sua disposição um "pássaro" no qual podia fugir voando até o esconderijo. Foi do interior destes "pássaros" que a batalha do céu entre os dois deuses teve lugar. E não podem restar dúvidas relativas à natureza da arma que finalmente liquidou o "pássaro" de Zu. Chamado TIL em sumério e til-lum em assírio, e devia querer dizer o que til significa hoje em dia em hebraico: "míssil".

Zu, então, era um deus, um dos deuses que tinha razões para planejar a usurpação dos poderes de Enlil, um deus com quem Ninurta, como legítimo sucessor, tinha todos os motivos para lutar.

Seria ele, talvez, MAR.DUK ("filho do puro morro"), o primogênito de Enki com sua mulher DAM.KI.NA, impaciente o suficiente para tomar por um ardil aquilo que não lhe pertencia legalmente?

Há razões para crer que, não tendo conseguido um filho com sua irmã e produzido deste modo um competidor legal para o reino de Enlil, Enki confiou a tarefa a seu filho Marduk. De fato, quando o antigo Oriente Médio foi tomado por grandes sublevações sociais e militares no início do 2º. milênio a.C., Marduk foi elevado na Babilônia à categoria de deus nacional da Suméria e da Acádia. Marduk foi proclamado rei dos deuses, substituindo Enlil, e aos outros deuses foi exigido que lhe jurassem fidelidade e viesse residir na Babilônia, onde suas atividades podiam ser facilmente supervisionadas.


Esta usurpação do reino de Enlil (muito tempo depois do incidente com Zu) foi acompanhada por um esforço extensivo dos babilônios para falsificar os textos antigos. Os mais importantes textos foram reescritos e alterados de forma a fazer de Marduk o Senhor dos Céus, o Criador, o Benfeitor, o Herói, em lugar de Anu ou Enlil ou até Ninurta. Entre os textos alterados figurava o "Conto de Zu", e, de acordo com a versão babilônica, Marduk (e não Ninurta) lutou com Zu. Nesta versão, Marduk clama: "Mahasti moh il Zu" ("Eu esmaguei o esqueleto do deus Zu"). Como fica evidente, então, Zu não podia ter sido Marduk.

Nem pareceria plausível que Enki, "Deus das Ciências", tivesse ensinado Ninurta tendo em vista a escolha e o uso das armas vitoriosas contra seu próprio filho Marduk. Enki, a julgar por seu comportamento, assim como por sua urgência em dizer a Ninurta para "cortar a garganta de Zu", esperava ganhar algo com a luta, não importa quem fosse o vencido. A única conclusão lógica é que também Zu era, de algum modo, um candidato legal ao reino de Enlil.

Isto sugere apenas um deus: Nanna, o primogênito de Enlil com sua consorte oficial Ninlil, porque, se Ninurta fosse eliminado, Nanna estaria na pista desobstruída da sucessão.

Nanna (diminutivo para NAR.NAR, "o brilhante") chegou até nós, através dos anos, em seu nome acádio (ou "semita") mais conhecido – Sin.

Como primogênito de Enlil, a ele era garantida a soberania sobre a mais famosa cidade-Estado da Suméria, UR ("A Cidade"). Seu templo chamava-se

E.GISH.NU.GAL ("casa da semente do trono"). Dessa residência, Nanna e sua esposa NIN.GAL ("grande senhora") conduziam os negócios da cidade e do seu povo com grande benevolência. O povo de Ur retribuía aos governantes divinos com grande afeição, chamando seu deus de "Pai Nanna" e outros nomes carinhosos.

A prosperidade de Ur foi atribuída pelo seu povo diretamente a Nanna. Shulgi, um governante de Ur (pela graça de deus) no 3º. milênio a.C., descreveu a "casa" de Nanna como "um grande lugar cheio de abundância", um "copioso local de ofertas de pão", onde as ovelhas se multiplicavam e os bois eram abatidos, um local de música doce onde soavam tambores e tamborins.

Sob a administração do deus protetor Nanna, Ur tornou-se o celeiro da Suméria, a fornecedora de cereais e de ovelhas e gado a outros templos por toda a parte. Um "Lamento da Destruição de Ur" informa-nos (pela forma negativa) de como era Ur antes de sua decadência:

Nos celeiros de Nanna não havia cereal.
As refeições da tarde dos deuses foram suprimidas;
Em suas grandes salas de jantar, vinho e mel cessaram...
Em seu supremo forno do templo, já bois e carneiros não são preparados;
O zumbido cessou no grande Lugar de Grilhetas;
Aquela casa onde se gritavam as encomendas de bois
Seu silêncio é opressivo...
Seu tormentoso almofariz e pilão estão inertes...
Os barcos de oferendas não trazem oferendas...
Não trazem pão de oferendas a Enlil em Nippur.
O rio de Ur está vazio, nenhuma barcaça aí se move...
Nenhum pé pisa suas margens; longas ervas crescem aí.

Outro lamento, deplorando "os currais que foram entregues ao vento", os  estábulos abandonados, os pastores que partiram, é extremamente invulgar: não foi escrito pelo povo de Ur, mas pelo próprio deus Nanna e por sua esposa Ningal. Estes e outros lamentos sobre a queda de Ur revelam o trauma de alguns acontecimentos pouco comuns. Os textos sumérios informaram nos que Nanna e Ningal deixaram a cidade antes que sua decadência fosse completa. Foi uma partida precipitada, descrita de maneira comovente:

Nanna, que amava sua cidade, partiu da cidade.
Sin, que amava Ur, não mais ficou em sua casa.
Ningal...
Fugindo de sua cidade através de território inimigo, pôs à pressa uma veste,
E partiu de sua casa.

A queda de Ur e o exílio de seus deuses foram descritos nos lamentos como resultado de uma decisão deliberada de Anu e Enlil. Nanna apelou aos dois no sentido de cancelar o castigo.

Possa Anu, o rei dos deuses, proferir: "Basta";
Possa Enlil, o rei das terras, decretar um destino favorável!

Apelando diretamente para Enlil, Sin trouxe seu coração sofredor ao seu pai; fez uma cortesia perante Enlil, o pai que o gerou, e suplicou-lhe:

Ó meu pai que me criaste,
Até quando olharás como inimigo para a minha expiação?
Até quando?..
No oprimido coração que tu fizeste vacilar como uma chama –
Lança, por favor, uma expressão amigável.

Em nenhum lugar os lamentos revelam as causas da ira de Anu e Enlil. Mas, se Nanna era Zu, a punição seria justificável pelo seu crime de usurpação. Seria ele Zu?

Podia certamente tê-lo sido, porque Zu tinha a posse de um tipo qualquer de máquina voadora - o "pássaro" no qual escapou e do qual lutou com Ninurta. Salmos sumérios falavam, com adoração, do "Barco do Céu".

Pai Nanna, Senhor de Ur...
Cuja glória no sagrado Barco do Céu é...
Senhor, filho primogênito de Enlil.
Quando ao Barco do Céu tu ascendes,

Tu és glorioso
Enlil adornou tua mão
Com um cetro eterno

Quando sobre Ur ao sagrado Barco tu subiste.

Mas há provas adicionais: o outro nome de Nanna, Sin, derivado de SU.EN, que era um modo diferente de pronunciar ZU.EN. O mesmo significado complexo de uma palavra de duas sílabas podia ser obtido colocando as sílabas em qualquer ordem: ZU.EN e EN.ZU eram "espelho" uma da outra. Nana/Sin como ZU.EN não era outro senão EN.ZU ("senhor Zu"). Foi ele, devemos concluir, que tentou tomar o reino de Enlil.

Podemos compreender agora por que é que, a despeito da sugestão de Ea, o senhor Zu (Sin) foi punido, não com a execução, mas com o exílio. Tanto os textos sumérios como as provas arqueológicas indicam que Sin e sua esposa fugiram para Haran, a cidade hurrita protegida por vários rios e terrenos montanhosos. É digno de nota o fato de que, quando o clã de Abraão deixou Ur, conduzido pelo seu pai Terah, dirigiu também sua caravana na direção de Haran, onde ficaram por muitos anos a caminho da Terra Prometida.

Embora Ur permanecesse para todo o sempre uma cidade dedicada a Nanna/Sin, Haran deve ter sido sua residência por um longo período de tempo, uma vez que a fizeram assemelhar-se quase exatamente a Ur, com seus templos, edifícios e ruas. André Parrot (Abraham et son Temps) [Abraão e o seu Tempo] resume as similitudes dizendo que "existem todas as provas de que o culto de Haran não era senão uma réplica exata do de Ur".

Quando o templo de Sin em Haran, construído e reconstruído ao longo dos milênios, foi desenterrado durante escavações que duraram mais de 50 anos, os achados incluíram duas estelas (pilares de pedra de memoriais), nas quais estava inscrito um registro único. Era um registro ditado por Adadguppi, uma alta sacerdotisa de Sin, de como ela rezara e planejara o regresso de Sin, porque em algum momento do passado.

Sin, o rei de todos os deuses,
Enfureceu-se com sua cidade
E seu templo, e subiu ao céu.

Que Sin, desgostoso ou desesperado, tenha "feito as malas" e "subido ao céu" é corroborado por outras inscrições. Estas dizem-nos que o rei assírio Assurbanipal obteve de certos inimigos um sagradoselo cilíndrico do mais caro jaspe" e melhorou-o "desenhando-lhe uma gravura de Sin". Mais tarde, ele inscreveu na pedra sagrada "um elogio de Sin e dependurou-a à volta do pescoço da imagem de Sin". Aquele selo de pedra de Sin devia ter sido uma relíquia dos velhos tempos, porque mais tarde se afirma que “ele é aquele cuja face foi danificada naqueles dias durante a destruição lavrada pelo inimigo".

Supõe-se que a alta sacerdotisa que nasceu durante o reinado de Assurbanipal fosse ela própria de sangue real. Em seus apelos a Sin, ela propõe um "acordo" prático: a restauração dos poderes de Sin sobre seus adversários em troca da ajuda que prestaria a seu filho Nabunaid para este se tornar governante da Suméria e da Acádia. Registros históricos confirmam que, no ano 555 a.C., Nabunaid, então comandante das armadas babilônicas, foi nomeado pelos seus colegas oficiais para ocupar o trono. Para isto, afirma-se, contribuiu a ajuda direta de Sin. Foi "no primeiro dia do seu aparecimento", informam-nos as inscrições de Nabunaid, que Sin, usando "a arma de Anu", conseguiu "tocar com um feixe de luz" os céus e esmagar os inimigos embaixo na terra.

Nabunaid cumpriu a promessa de sua mãe ao deus. Reconstruiu o templo de Sin, E.HUL.HUL ("casa de grande alegria"), e declarou Sin como Deus Supremo. Foi então que Sin pôde agarrar em suas mãos "o poder do cargo de Anu, empunhou todo o poder do cargo de Enlil, apoderou-se de todo o poder
do cargo de Ea - segurando, deste modo, em sua mão todos os celestiais poderes". Derrotando, assim, o usurpador Marduk, capturando mesmo os poderes de Ea, pai de Marduk, Sin assumiu o título de "Crescente Divino
" e firmou sua reputação como Deus Lua.

Como conseguiu Sin, que se diz ter voltado aos céus desgostoso, realizar tais feitos de volta à terra?

Nabunaid, confirmando que Sin tinha realmente "esquecido sua zangada disposição... e decidiu regressar ao templo Ehulhul", exigiu um milagre. Um milagre "que não acontecia à terra desde os dias de outrora" tivera lugar. Uma deidade "descera vinda do céu".

Este é o grande milagre de Sin,
Que não acontecia na terra
Desde os dias de outrora;
Que o povo da terra
Não vira nem escrevera
Nas barras de argila, para preservar para sempre:
Que Sin,
Senhor de todos os deuses e de todas as deusas,
Residindo nas alturas,
Desceu vindo dos céus.

Lamentavelmente, não nos são fornecidos mais detalhes acerca do lugar e modo em que Sin aterrissou. Mas sabemos que foi nos campos fora de Haran que Jacó, no seu caminho para Canaã para encontrar uma noiva "na velha região", viu "uma escada fixada no solo e cujo topo se erguia em direção aos céus e havia anjos do Senhor subindo e descendo por ela".

Ao mesmo tempo que Nabunaid restaurava os poderes e os templos de Nanna/Sin, restaurou também os templos e a adoração dos dois filhos gêmeos de Sin: IN.ANNA ("senhora de Anu") e UTU ("o brilhante").

Os dois nasceram de Sin e sua esposa oficial Ningal, e eram, deste modo, membros por nascimento da dinastia divina. Inanna era tecnicamente a primogênita, mas seu irmão gêmeo Utu era o filho primogênito e assim o herdeiro dinástico legal. Ao contrário da rivalidade que existiu em circunstâncias semelhantes entre Esaú e Jacó, as duas crianças divinas cresceram muito afeiçoadas uma à outra. Partilharam experiências e aventuras, auxiliavam-se mutuamente, e quando Inanna teve de escolher um marido entre dois deuses, voltou-se para seu irmão em busca de conselho.

Inanna e Utu nasceram em tempos imemoriais, quando apenas os deuses habitavam a Terra. A cidade-domínio de Utu - Sippar - estava na lista entre as primeiríssimas cidades estabelecidas pelos deuses na Suméria. Nabunaid relatou numa inscrição quando empreendeu a reconstrução do templo de Utu
E.BABBARA ("casa brilhante") em Sippar:

Eu procurei pela sua antiga plataforma-alicerce,
E cavei dezoito cúbitos no interior do solo.
Utu, o Grande Deus de Ebabbara...
Mostrou-me pessoalmente a plataforma-alicerce
De Naram-Sin, filho de Sargão, que desde há 3.200 anos
Nenhum rei antes de mim vira.

Quando floresceu a civilização na Suméria e o homem se juntou aos deuses na "Terra Entre-os-Rios", Utu foi primeiramente associado com a lei e a justiça. Alguns primitivos códigos de leis, além de invocarem Anu e Enlil, eram também apresentados como requisições de aceitamento e aderência porque eram promulgados “em acordo com a verdadeira palavra de Utu". O rei babilônico Hamurabi inscreveu seu código de leis numa estela, no topo da qual se representou o rei recebendo as leis do deus.


Barras desenterradas em Sippar atestam sua reputação nos tempos antigos como um lugar de justas e corretas leis. Alguns textos descrevem o próprio Utu sentado em julgamento de deuses e igualmente de homens. Sippar era, de fato, a sede da "suprema corte" suméria.

A justiça advogada por Utu lembra a do Sermão da Montanha registrada no Novo Testamento. Uma "barra da sabedoria" sugere o seguinte comportamento para agradar a Utu:

Não faças mal ao teu adversário;
Teu malfeitor recompensarás com o bem.
Ao teu inimigo, deixa que seja feita justiça...
Não deixes que teu coração seja induzido para o mal...
Aquele que pede esmola
Dá alimento para comer, dá vinho para beber...
Sê útil; faze o bem.

Talvez porque ele assegurava a justiça e prevenia a opressão - e talvez também por outras razões como mais tarde veremos, Utu era considerado o protetor dos viajantes. No entanto, os mais comuns e duradouros epípetos aplicados a Utu fazem referência, sobretudo, ao seu esplendor. Desde os mais remotos tempos ele era chamado Babbar ("o brilhante"). Ele era "Utu, que emana uma larga luz", aquele que "ilumina céus e terra".

Hamurabi, em sua inscrição, chamou o deus pelo seu nome acádio, Shamash, que nas línguas semitas significa "Sol". Julgam os estudiosos, desde aí, que Utu/Shamash era o Deus Sol mesopotâmico. Mostraremos, à medida que avançarmos, que, enquanto a este deus era associado o Sol como seu equivalente celestial, havia outro trecho das inscrições em que se dizia que ele "emana uma brilhante luz" quando realiza as tarefas especiais que lhe são confiadas pelo seu avô Enlil.

Tal como os códigos de leis e os registros de corte são testemunhos humanos da real presença entre os antigos povos da Mesopotâmia de uma deidade chamada Utu/Shamash, assim existem inscrições sem fim, textos, encantamentos, oráculos, orações e descrições atestando a presença física e a existência da deusa Inanna, cujo nome acádio era Ishtar. Um rei mesopotâmico do século 13 a.C. afirma que ele reconstruíra o templo da deusa da cidade de seu irmão - Sippar - em alicerces que no tempo tinham 800 anos de existência. Mas em sua cidade central, Uruk, os contos referentes a Ishtar recuam até mais vetustos tempos.

Conhecida pelos romanos como Vênus, pelos gregos como Afrodite, pelos cananitas e hebreus como Astarte, pelos assírios, babilônios, hititas e outros povos antigos como Ishtar ou Eshdar, pelos acádios e sumérios como Inanna, ou Innin, ou Ninni, ou por outros de seus muitos apelidos, diminutivos e epítetos, ela foi em todos os tempos a Deusa da Arte Guerreira e a Deusa do Amor, uma impetuosa e bela mulher que, embora apenas quatrineta de Anu, gravou para si própria, por si própria, um lugar de destaque entre os grandes deuses do céu e da terra.

Como jovem deusa, aparentemente, foi-lhe concedido um domínio numa região longínqua a leste da Suméria, a Terra de Aratta. Era aí que "a Suprema, Inanna, rainha de toda a terra", tinha sua "casa". Mas Inanna tinha ambições mais altas. Na cidade de Uruk estava o grande templo de Anu, ocupado apenas durante suas ocasionais visitas de Estado à terra; e Inanna dirigiu seus olhares para esta sede do poder.

Listas de reis sumérios confirmam que o primeiro governante não divino de Uruk foi Meshkiaggasher, um filho do deus Utu e de uma mãe humana. A ele sucedeu seu filho Enmerkar, um grande rei sumério. Inanna, então, era a tiaavó de Enmerkar, e encontrou poucas dificuldades em persuadi-lo de que ela devia, realmente, ser a deusa de Uruk, de preferência ao remoto Aratta.

Um longo e fascinante texto chamado "Enmerkar e o Senhor de Aratta" descreve como Enmerkar enviou emissários para Aratta, usando todos os argumentos possíveis numa "guerra de nervos" para forçar Aratta a submeterse porque "o Senhor Enmerkar, que era servo de Inanna, a fizera rainha da casa de Anu". O fim pouco claro da epopéia sugere um final feliz: enquanto Inanna se mudava para Uruk, ela não "abandonou sua Casa em Aratta". Não é totalmente improvável que ela se tivesse tornado uma "deusa viajora", uma vez que Inanna/Ishtar era conhecida de outros textos como uma aventureira viajante.

Sua ocupação do templo de Anu em Uruk não podia ter acontecido sem seu conhecimento e consentimento, e os textos dão-nos idéias definidas sobre o modo como tal consentimento foi obtido. Em breve Inanna foi conhecida por "Anunitum", um diminutivo significando "amada de Anu". Acontece que
Inanna partilhava não só o templo, como o leito de Anu sempre que ele vinha a Uruk, ou nas referidas ocasiões de sua ascensão à residência celestial. Tendo deste modo aberto seu próprio caminho como deusa de Uruk e senhora do templo de Anu, Ishtar continuou a usar truques para elevar a posição de Uruk e aumentar seus próprios poderes. Muito mais longe, descendo o Eufrates ficava a cidade antiga de Eridu, o centro de Enki. Sabendo de seu grande conhecimento de todas as artes e ciências da civilização, Inanna resolveu pedir, fazer empréstimo ou roubar esses segredos. Pretendendo, obviamente, usar seu "encanto pessoal" sobre Enki (seu tio-avô), Inanna procurou visitá-lo sozinha. O fato não passou despercebido a Enki, que ordenou a seu mordomo para preparar jantar para dois.

Vem, meu mordomo Isimud, ouve minhas instruções;
Dir-te-ei uma palavra; atende às minhas palavras:
A donzela, completamente sozinha, dirigiu seus passos para o Abzu...
Faz a donzela entrar no Abzu de Eridu,
Dá-lhe bolos de cevada com manteiga para comer,
Serve-lhe a fresca água que refresca o coração,
Dá-lhe cerveja para beber...

Feliz e embriagado, Enki estava pronto a fazer o que quer que fosse por Inanna. Quando ela ousadamente lhe pediu as fórmulas divinas, que eram a base de uma alta civilização, Enki concedeu-lhe cerca de cem. Entre estas encontravam-se algumas pertencentes à suprema senhoria, ao reino, às funções sacerdotais, armas, procedimentos legais, profissão-escriba, trabalho em madeira, e até o conhecimento de instrumentos musicais e prostituição do templo. Quando Enki despertou e compreendeu o que fizera, já Inanna estava a caminho de Uruk. Enki ordenou que a perseguissem "intimidantes armas", mas foi em vão, porque Inanna já se apressara para Uruk em seu "Barco dos Céus".

Bastante freqüentemente, Ishtar era representada como uma deusa nua; pavoneando sua beleza, ela era mesmo representada levantando suas saias para revelar as partes inferiores de seu corpo.

Gilgamesh, um governante de Uruk por volta do ano 2.900 a.C., que era também parcialmente divino (tendo nascido de um pai humano e de uma deusa), relatou como Inanna o seduziu, mesmo depois de ela ter já um esposo oficial. Tendo-se lavado depois de uma batalha e envergado "um manto de fímbrias douradas, apertado com uma faixa".

Gloriosa Ishtar ergueu o olhar até a sua beleza.
Vem, Gilgamesh, sê o meu amante!
Vem, concede-me o teu fruto.
Tu serás meu parceiro masculino, eu serei tua mulher.

Mas Gilgamesh conhecia a história. "Qual de teus apaixonados amaste para sempre?", perguntou ele. "Qual de teus pastores te agradou para todo o sempre?" Recitando uma longa lista de seus casos amorosos, ele recusou. À medida que o tempo passava - à medida que assumia mais altas posições no panteão e com elas a responsabilidade de negócios de Estado -, Innana/Ishtar começou a dispor de mais altas qualidades marciais e foi freqüentemente descrita como uma Deusa de Guerra, armada até os dentes.

As inscrições deixadas pelos reis assírios descrevem o modo como partiram para a guerra por ela e sob seu comando, como ela os aconselhou diretamente a atacar ou a esperar, como ela às vezes marchava à frente das tropas e como, pelo menos numa ocasião, ela concedeu uma teofania e apareceu perante todas as tropas. Em troca de sua lealdade, prometeu aos reis assírios uma longa vida e sucesso. "De uma câmara dourada nos céus eu olharei por vocês", assegurou-lhes.

Ter-se-ia ela tornado uma amarga guerreira porque também passou por tempos difíceis com a subida de Marduk à supremacia? Numa de suas inscrições, Nabunaid disse: "Inanna de Uruk, a princesa exaltada domiciliada numa célula dourada, que cavalgava num carro de batalha ao qual estavam atrelados sete leões - os habitantes de Uruk mudaram seu culto durante o governo do rei Erba-Marduk, retiraram sua célula e desarmaram sua equipe". Inanna, relata Nabunaid, "tinha, pois, deixado E-Anna zangada, e permaneceu, por esta razão, num local inconveniente" (que ele não nomeia).

Procurando talvez combinar amor com poder, a cortejadíssima Inanna escolheu para seu marido DU.MU.ZI, filho mais novo de Enki. Muitos dos antigos textos abordam os amores e as disputas dos dois. Alguns trazem canções de amor de grande beleza e vívida sexualidade. Outros contam como Ishtar, regressando de uma de suas viagens, encontrou Dumuzi celebrando sua ausência. Nessa altura, ela planejou sua captura e desaparecimento no Mundo Inferior, um domínio governado pela sua irmã E.RESH.KI.GAL e seu consorte NER.GAL. Alguns dos mais celebrados textos sumérios e acádios falam da viagem de Ishtar até o Mundo Inferior procurando seu amado expulso.

Dos seis filhos conhecidos de Enki, três deles foram retratados em contos sumérios: o primogênito Marduk, que finalmente usurpou a supremacia; Nergal, que se tornou governante do Mundo Inferior, e Dumuzi, que casou com Inanna/Ishtar.

Também Enlil teve três filhos que representaram papéis-chave tanto nos negócios divinos como nos humanos: Ninurta, que, tendo nascido de Enlil e sua irmã Ninhursag, era o legal sucessor; Nanna/Sin, primogênito da esposa oficial de Enlil, Ninlil; e um filho mais novo de Ninlil, chamado ISH.KUR ("montanhoso", "terra das longínquas montanhas"), que era mais freqüentemente chamado Adad ("amado").

Como irmão de Sin e tio de Utu e Inanna, Adad parece ter-se sentido mais à vontade com eles do que em seu próprio lar. Os textos sumérios agrupam constantemente os quatro. As cerimônias ligadas à visita de Anu a Uruk falam também dos quatro como de um grupo. Um texto, descrevendo a entrada na corte de Anu, afirma que se chegava à sala do trono através do "portão de Sin, Shamash, Adad e Ishtar". Outro texto, publicado primeiramente por V. K. Shileiko (Academia Russa de História de Culturas Materiais), descreveu poeticamente os quatro como retirando-se em conjunto para o descanso noturno.

A maior afinidade parece ter existido entre Adad e Ishtar, e os dois chegam mesmo a ser representados lado a lado, como no relevo mostrando um governante assírio sendo abençoado por Adad (segurando o anel e o raio) e por Ishtar, segurando seu arco. (A terceira deidade está muito mutilada para poder ser identificada.)

Haveria nesta "afinidade" mais do que esta platônica relação, especialmente tendo em vista o "registro" de Ishtar? Será digno de nota que no bíblico Cântico dos Cânticos a jocosa donzela chame ao seu amante dod, palavra que significa simultaneamente "amante" e "tio"? Então, era Ishkur chamado Adad, um derivativo do sumério DA.DA, porque ele era o tio que era o amante?

Mas Ishkur não era só um conquistador, era um deus poderoso, endossado pelo seu pai Enlil com poderes e prerrogativas de um deus da tempestade. E como tal era reverenciado, como o eram o hurrita/hitita Teshub e o urastio Teshubu ("soprador de vento"), o amorita Ramanu ("trovejante"), o cananita Raginu ("o lançador de granizo"), o indo-europeu Buriash ("fazedor de luz"), o semita Meir ("ele que ilumina" os céus).

Uma lista de deuses guardada no Museu Britânico, como é mostrada por Hans Schlobies (Der Akkadische Wíttergott in Mesopotamen) [O Deus do Clima Acádio na Mesopotâmia], esclarece que Ishkur era realmente o divino senhor em terras distantes da Suméria e da Acádia. Como revelam os textos sumérios, isto não aconteceu acidentalmente. Enlil, ao que parece, endossou intencionalmente seu neófito como "deidade residente" nas terras de montanha a norte e a leste da Mesopotâmia.

Por que afastou Enlil seu mais jovem e amado filho para tão longe de
Nippur?
Foram encontrados vários textos épicos sumérios abordando discussões e até lutas sangrentas entre os mais jovens deuses. Muitos selos cilíndricos descrevem cenas em que um deus se defronta com um deus.

Parece que a primitiva rivalidade entre Enki e Enlil foi continuada pelos filhos de ambos, acontecendo algumas vezes que irmãos se virassem contra irmãos - um conto divino de Caim e Abel. Algumas destas lutas eram contra uma deidade identificada como Kur, com toda a certeza, Ishkur/Adad. Isto bem pode explicar a razão pela qual Enlil julgou aconselhável garantir ao seu filho mais novo um domínio longínquo, a fim de o manter afastado das perigosas batalhas pela sucessão.

A posição dos filhos de Anu, Enlil e Enki e de suas proles emerge claramente na linhagem dinástica através de um artifício único sumério: a distribuição de uma categoria numérica a certos deuses. A descoberta deste sistema faz também vir à superfície a relação entre os membros do grande círculo dos deuses do céu e da terra quando a civilização suméria floresceu. Veremos que este supremo panteão era constituído por doze deidades.

A primeira pista sugerindo a aplicação aos grandes deuses do sistema
numérico criptográfico apareceu com a descoberta de que os nomes dos

números 30, 20 e 15, respectivamente. A mais alta unidade do sistema
sexagesimal sumério - 60 - era associada a Anu; Enlil "era" o 50; Enki, o 40,
e Adad, o 10. O número 10 e seus seis múltiplos dentro do número de base
60 eram deste modo associados a deidades masculinas e parecerá plausível
que os números terminados em 5 fossem associados às deidades femininas. A
partir daqui, surge a seguinte tábua criptográfica:

MASCULINO FEMININO

60 - Anu                 55 - Ant
   50 - Enlil                 45  - Ninlil
40 - Ea/Enki             35 - Ninki
30 - Nanna/Sin           25 - Ningal
20 - Utu/Shamash                 15 – Inanna/Ishtar
10 - Ishkur/Adad            5 - Ninhursag

6 deidades masculinas    6 deidades femininas

A Ninurta (e não nos devemos admirar com o fato), era associado o no. 50, tal como a seu pai. Por outras palavras, sua categoria dinástica foi convencionada numa mensagem criptográfIca: "Se Enlil vai, tu, Ninurta, calçarás seus sapatos; mas, até lá, não és ainda um dos doze, porque a categoria de '50' está ocupada".

Não devemos ficar admirados ao saber que, quando Marduk usurpou o reino de Enlil, ele insistiu em que os deuses o endossaram com “os cinqüenta nomes" para dar a entender que a categoria de "50" se tornara sua.

Houve muitos outros deuses na Suméria - filhos, netos, sobrinhas e sobrinhos dos grandes deuses - e houve também várias centenas de deuses de categoria vulgar, aos quais se chamavam "Anunnaki", e que estavam incumbidos (digamos assim) de "deveres gerais". Mas apenas doze constituíam o grande círculo.

Eles, suas relações familiares e suas linhas de sucessão dinástica podem ser mais bem entendidos se observamos o quadro da página seguinte.



Fonte: O 12º. PLANETA - Zecharia Sitchin

Tradução de ANA PAULA CUNHA

DOWNLoad: http://versadus.com/Zecharia-Sitchin-O-12-Planeta-Nibiru.html

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